JARDIM DO LAGO

Projeto de Desenvolvimento Residencial Unifamiliar no Estado do Rio de Janeiro.

Extraído de texto da conferência “Natureza, Cultura e Paisagismo”, tema apresentado pelo arquiteto paisagista Fernando Magalhães Chacel no 1º Congresso Internacional da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas – Metodologia e Práticas Projetuais em Arquitetura Paisagística da América Latina.

O segundo projeto escolhido, por nós desenvolvido nos seus aspectos urbanísticos, ambientais e paisagísticos, foi o de um condomínio residencial na região dos lagos do estado de Rio de Janeiro.

Situado no município de Búzios, com área de cerca de 350.000m², recebeu por parte da Secretaria Municipal de Meio Ambiente determinação expressa de que fosse mantida integridade de sua área, não sendo permitido qualquer tipo de desmembramento, dentro dos seus limites.

Tal exigência possibilitou o surgimento de uma proposta de intervenção de caráter auto sustentável e um modelo urbanístico ambiental pioneiro em toda a região.

Assim, a gleba, teve o seu projeto voltado para a manutenção e valorização, no mais alto grau possível de expressivo e bem conservado fragmento de mata de restinga.  Essa mata apresentava, em alguns pontos clareiras ou áreas degradadas por efeito de borda.  Essa formação florestal era constituída, predominantemente, por densa cobertura vegetal com alto grau de bio-diversidade ocupando mais de 50% da sua superfície.  O restante da área projetual, mostrava-se fortemente degradada por ações humanas não conservacionistas, se encontrava, alterada por trabalhos de drenagem de empreendimentos a ela adjacentes, vindo a configurar uma área brejada, antropizada e recoberta por vegetação herbácea com baixa diversidade biótica.

Assim, em relação ao próprio espaço para implantação do empreendimento verifica-se uma forte dicotomia no que se tange a sua cobertura vegetal, a sugerir ao planejador menos avisado, a proposição de formas ou modelos de ocupação diferenciados para o terreno.

Não era essa entretanto a visão da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Búzios.  Sua intenção era que se buscasse uma solução integrada dentro de situações distintas de paisagem para o uso do solo, com manutenção conservação e preservação da mata residual e recuperação e transformação da área degradada do brejo antrópico.

Quanto a área do bosque, a primeira resolução tomada foi baixar a taxa de ocupação e os índices de aproveitamento previstos e praticados pela legislação.  Priorizou-se, desde logo cuidados especiais quanto a supressão indispensável de vegetação tanto no sistema viário quanto no interior dos lotes.

Foi feita pelo engenheiro florestal Deivison Sampaio Farias, além da caracterização do fragmento de mata, a identificação da sua cobertura vegetal, em todos os seus estratos.  Nos locais atingidos pela proposta de urbanização seriam executados, previamente, transplantes da vegetação a suprimir para as áreas degradadas do empreendimento.  No interior dos lotes, já então com a vegetação retirada de forma seletiva, os projetos arquitetônicos deveriam respeitar a arborização residual, incorporando-a a trama paisagística final das suas áreas ajardinadas.

A área do antigo brejo, drenado e descaracterizado aparecia então como o maior problema a resolver, por ser esse local totalmente desprovido de qualquer atrativo, contrastando fortemente com a exuberante presença da expressiva e valiosa mata de restinga do setor bosque.

A solução foi “destampar” o lençol freático e expor as águas de um lago artificial desenhada de forma a criar penínsulas com amplas possibilidades de implantação de lotes. 

O material retirado para a formação dos lagos foi utilizado para aterramento do restante da área de campo antrópico.  Esta solução permitiu o surgimento de uma área com características de parque onde residências, clube, bosques transplantados e a mata de restinga preservada, que serve de pano de fundo de todo o setor lago, trarão a paisagem final do empreendimento o equilíbrio entre o construído e o plantado e a desejável saúde ambiental do local.

Os setores bosque e lago em conjunto representam um novo modelo de intervenção criado para Búzios, por exigência do setor público, que se aproxima de uma solução com características de auto sustentabilidade preconizada para projetos de desenvolvimento.

Acreditamos que este empreendimento, tal como foi concebido, como oferta de uma nova organização urbana baseada em valores éticos, ecológicos, culturais e paisagísticos e por ser modelo diferenciado dos demais parcelamentos de traçado ortogonais densamente povoados da região dos lagos terá em futuro bem próximo plena aceitação pela sociedade como um todo e também pelo empresário esclarecido.

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